Sempre tenho dúvida com relação ao cuidado com perímetro cefálico na puericultura. Tenho duas pacientes gêmeas, vão completar agora 1 ano, e o PC tem se elevado de percentil, sendo que uma delas ultrapassou o percentil 3, mantendo DNPM adequado, com 01 polpa digital da fontanela. Como manter o seguimento da puericultura? Desde já obrigada.
Sempre tenho dúvida com relação ao cuidado com perímetro cefálico na puericultura. Tenho duas pacientes gêmeas, vão completar agora 1 ano, e o PC tem se elevado de percentil, sendo que uma delas ultrapassou o percentil 3, mantendo DNPM adequado, com 01 polpa digital da fontanela. Como manter o seguimento da puericultura? Desde já obrigada.

Profissional solicitante:

Médico clínico

 

Resposta:
A macrocefalia (megacefalia) envolve um perímetro cefálico de 2 desvios padrão acima da média para a idade. O cérebro humano é mais vulnerável aos insultos, em dois períodos: o primeiro, e menos comum, entre dez (10) a dezoito (18) semanas de gestação, no qual ocorre a multiplicação neuronal, que pode ser afetada por fatores como exposição a radioatividade, infecções virais, como rubéola, anomalias cromossômicas, erros metabólicos como altos níveis de fenilalanina no plasma materno, medicamentos ingeridos pela mãe, como os esteroides, que, em uso prolongado, reduzem a divisão celular; o segundo, e mais comum, conhecido como crescimento posterior, ou estirão, se inicia na metade do período gestacional, prolongando-se até aproximadamente o décimo-oitavo (18º) mês pós-natal, sendo este, portanto, um dos maiores períodos de vulnerabilidade. É importante salientar que não mais que 1/6 do estirão ocorre no período fetal, e, portanto, não menos que 6/7 do estirão cerebral é pós-natal, e nos dois primeiros anos de vida.
O perímetro cefálico é um parâmetro antropométrico altamente correlacionado com o tamanho cerebral. A desnutrição, nos primeiros anos de vida, leva a uma diminuição do tamanho corporal; entretanto, considerando que o crescimento continua até aproximadamente os dezoito (18) anos, se a nutrição for adequada mais tardiamente, o impacto negativo, inicial, poderá ser minimizado. Porém, este fato não ocorre com o cérebro, porque os dois (2) primeiros anos de vida não são somente o período de maior crescimento, mas constituem o período em que o crescimento cerebral se completa quase que totalmente (83,6% no 1º ano de vida).
Medindo-o rotineiramente, o médico está em condições de detectar precocemente diferentes patologias intracranianas. Nos países subdesenvolvidos destaca-se as relações entre prejuízo do estado nutricional, crescimento do cérebro e desenvolvimento mental. Se a nutrição da criança é um dos fatores do crescimento físico (do qual é parte o crescimento do cérebro) e se, por outro lado, a nutrição depende do nível socioeconômico da família à qual pertence a criança, conclui-se que nenhuma aferição do crescimento pode ser feita sem o conhecimento dos fatores socioeconômicos.
Segundo Kenner (2001) a circunferência média encontrada em um recém-nascido normal está em torno de 32 a 35 cm. A tabela abaixo demonstra o crescimento normal do perímetro cefálico (cm/mês):
Idade Perímetro Cefálico (cm/mês)
0 – 3 meses 2 cm ao mês
3 – 6 meses 1 cm ao mês
6 – 9 meses 0,5 cm ao mês
9 – 12 meses 0,5 cm ao mês
1 – 3 anos 0,25 cm ao mês
4 – 6 anos 1 cm ao ano
JAFFE et al., 1992, enfatizam que estudos feitos em crianças, do nascimento até dois anos de idade, mostram variabilidade na aceleração ou desaceleração do crescimento, em relação ao perímetro craniano, em vários momentos. A aceleração ocorre antes da desaceleração e é frequente a mudança de canal de crescimento, fenômeno que ocorre também para peso e estatura. Portanto, crianças saudáveis, com adequado desenvolvimento neuropsicomotor e que, durante o primeiro ano de vida, apresentem oscilação de canal de crescimento do P.C., devem ser observadas clinicamente, antes de se instituir qualquer investigação laboratorial ou de imagens.
Exames complementares de diagnóstico: realizam-se com base nos achados clínicos. Na suspeita de uma macrocefalia constitucional, em que a evolução do PC é proporcional e acompanhada de desenvolvimento psicomotor adequado, a avaliação e seguimento clínico seriado são suficientes, não havendo necessidade de recorrer a estudo imagiológico, sobretudo quando existe história familiar de macrocefalia. Existem alguns fatores que determinam a necessidade e urgência de uma avaliação: Sintomas associados (cefaleias, ataxia, alterações da visão). Anomalias do desenvolvimento. Características sindrômicas. História familiar de anomalias neurológicas ou cutâneas. Idade de início. Velocidade de instalação. História de traumatismo ou infeção do SNC
A escolha do MCD mais adequado depende da idade de início da macrocefalia, dos sintomas associados, dos achados do exame físico, e, sobretudo, da velocidade de aumento do PC. Assim, na abordagem de um paciente com macrocefalia, o primeiro passo deve ser a distinção entre formas evolutivas e formas não-evolutivas.
Na presença de uma macrocefalia não evolutiva, deve ser verificado se existe macrocefalia nos pais (definida como PCP98). Se não existir macrocefalia nos pais, deve ser realizado um estudo imagiológico do SNC.
Na presença de uma macrocefalia evolutiva é obrigatório realizar estudo imagiológico como primeira linha (sobretudo para exclusão de hidrocefalia ativa). Exames adicionais podem ser necessários atendendo à história e exame clínico.
A referenciação para consulta de genética pode ser útil em determinados casos.
. Crianças com macrocefalia sindromática podem necessitar de avaliação de anomalias associadas (ex: ecocardiograma, exame oftalmológico, ecografia abdominal, radiografia esqueleto).
. Crianças com regressão psicomotora ou patologia degenerativa necessitam de estudo metabólico, genético, eventualmente eletroencefalograma. Radiografia de crânio: pode revelar displasias esqueléticas primárias.
Ecografia Transfontanelar: estudo imagiológico inicial em crianças com macrocefalia, exame neurológico normal, desenvolvimento adequado, sem evidência de aumento de pressão intracraniana e fontanela anterior aberta. É um exame não invasivo, não implica sedação e permite identificar, entre outros, alargamentos dos espaços aracnóideo ou vascular. TC-CE: exame utilizado quando há suspeita de hidrocefalia obstrutiva. Permite identificar calcificações e coleções intracranianas. Na dependência deste US transfontanela, deverá ser solicitado avaliação da Neurologista
Outro ponto a ser analisado será o perfil sorológico de infecções congênitas na gestação e atual.. Espero ter ajudado. Estou à disposição.

Referências:
Jaffe M, Tal Y, Hadad B, Tirosh E and Tamir A. Variability in head circumference growth rate during the first 2 years of life. Pediatrics 90: 190-192, 1992.
Kenner, C. Enfermagem Neonatal. 2ª ed. Rio de Janeiro: Reichman & Affonso; 2001.
Ministério da Saúde (BR), Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica, nº 33, Saúde da Criança: Crescimento e Desenvolvimento. Brasília;2012. 272 p. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/publicacoes/cadernos_ab/caderno_33.pdf
Sobreira I, Pereira B, Neiva F, Figueiroa S. Macrocefalia-Protocolo de atuação, Centro Hospitalar de Porto 2012. Disponível em: https://neuropediatria.pt/protocolo.macrocefalia_1.pdf